sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

Canção do Desapego



Então por hoje
nada terei
deixarei
que levem tudo
sem hesitar ou sentir remorso,
deixarei que quebrem tudo
sem ter pena do quebrado

Por hoje não terei nada
e levarei comigo
apenas essa pequena carga
tão leve e graciosa
Que de tão simples
só tem a ela mesma:
o nada.

então é isso
por hoje terei só a mim
Podendo assim voar
aos cantos mais remotos
como um saco vazio
Sem furo, é claro!


P.S.: Postado Também no Cachaçaria Cearense de Letras

sábado, 18 de dezembro de 2010

No Cabaret



Por gostar
assim talvez,
Por amor
Por cuspir e feder.
Se sentiu parte
daquele recinto
onde
era lugar
De mostrar.

Olhou
mais uma vez
para as pernas
da mulher a insinuar-se
e deixou-se
levar pela fumaça do cigarro derby.

Aquilo
era
Ele
também.

Então
deleitou-se
em mais uma
Insólita
dança-comum
das putas.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Poética


(Poeta James Douglas Morrison)


O que enchede sentimento.

Fúria
Lascívia
Ternura
Horror
Nojo
Torpor
Desilusão
Ódio
Razão

Sempre transposição
do real
para o sentível
ou do sentível
Para o real.

tudo abstrato, no mais, tudo abstrato.

Porque todo mundo
sempre procura
um pouco de abstratência
Para que a alma
conjugue os verbos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Poema Malandro



Dispenso fórmulas!


- Ora rapaz,

Não preciso disso

Não me interessa

Isso.

Não me oportunes

mais,

Poeta pré fabricado

Dos livros de gramática.


Meu verso

Poemiza

À maneira dele

Então guarde

pra si

Essa maneira

B mais A

De poetizar.


Meu verso é malandro

E segue seguindo

À maneira dele.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Elas




As reticências São mais sutis!
Não confirmam,
Não negam,
Não dizem
Sussurram uma música.
Preferem o subentendido,
Porque o implícito sempre foi mais sensual.

As reticências tem cílios longos
E falam baixinho.

Elas sempre fazem bem feito
A tarefa que lhes é concebida
Que é entregar o final
Para quem o valha;
Que é não se comprometer,
Que é deixar solto,
Que é deixar.

Peço emprestado
O silêncio musical das reticências
Para terminar esse poema
...



quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Lânguidos Olhos

(A Praça do Ferreira)


Nunca vi olho tão marejado.

É o sol

sob nossos ombros,

sob as folhas,

sob as esquinas falantes,

sob os ladrilhos já escondidos pelo asfalto.


Nunca vi olho tão marejado.


Muitos dizem

Que isso é besteira, que é mentira

Que o sol

Nos olha é furioso.

Ora qual!

Vá lá na praça do relógio,

Lugar onde o tempo parou,

Vá a qualquer hora,

E me diga...

Há olho mais marejado?

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Companhia


Não sei se preciso de amores

Mas preciso de versos

Sempre

E quando eu canso

Eles ainda permanecem.


Quando toda a beleza

E a leveza poética

Dos versos

Me cansam

Eles ainda permanecem


No silêncio empático

Da palavra contida

Da força gritante

De não dizer nada.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

1380


Passei pela aquela rua...

Ele talvez estivesse em casa, dormindo

(ou não)

Passei a metros

Do cheiro.

Do som que os pássaros faziam por lá...

O cheiro da cama,

A cor do quarto com a luz apagada.


Eu passei a alguns metros,

Talvez ele dormisse.

Velei por segundos eternos

O aquele sono,

Ao passar por lá.


Com as pálpebras cerradas

À luz que ninguém vê quando dorme

Meu espírito o sentia

E talvez o vigiasse deitado.


Meu espírito sentou, deitou

Sentiu toda aquela atmosfera.

Com o silêncio da luz

E o afago da luz

Eu cuidei apenas em olhá-lo,

Vê a luz do dia ir tocando vagarosamente

O aquele rosto

E ir clareando, clareando

Enchendo tudo

Enquanto

A inocência do sono o embriagava

Enquanto ele nada sabia

De olhos fechados,

Em paz

E eu apenas olhava.


As cenas fantasmagóricas

Nas ruas:

Nós em todo lugar.

E eu passei pelas ruas

E fui embora

Nessa mesma manhã

Deixando tudo

No mesmo lugar.


P.S.: À alguém que me mostrou A Porta(sutilmente).

sábado, 27 de novembro de 2010

Segredo de Bamba

(Capa do Albúm Verde que te quero Rosa - Cartola)


De onde vem o bruto

Vem o doce

E vem o louco,

O gênio,

Os poetas.


O mundo é uma reta maleável

Cheio de possibilidades,

Até o improvável é possível.

Todos saem do mesmo lugar,

Do mar negro,

Todos emergem do mar negro,

Do vazio profundo,

Todos vêm do preto,

Do nada,

Da falta de tudo

E se perdem

Dentro de suas próprias cabeças.

É isso

As possibilidades do mundo,

É o possível

Pra toda cabeça

E as cabeças podem tanto...


Todo mundo vêm do mesmo lugar

E suas cabeças os fazem.

A minha cabeça,

A tua cabeça

Fez a mim, a nós, o mundo.

A minha cabeça

Faz a tua,

A tua faz a minha,

A minha faz a minha,

A tua faz a tua

Nós nos fazemos.


Os espertos

Vivem a partir da sua cabeça

Mergulham

No tudo

Que ela pode criar

E vão e vão e vão...


E os bobos

Os bananas

Os mamões

Salada completa dos caretas,

Eles vivem a partir do

“lado de fora”

De fora pra dentro

(Quando muito!).

Eles demoram muito pra chegar perto do real,

Demoram muito

Pra encontrarem suas vidas,

E talvez nem encontrem,

Morrem sem saber.

Os caretas

Morrem de graça.


A morte tem é raiva

De levar essas cabeças

Por que é um grande tédio

Eles nunca sabem,

Não vão saber,

Não vão perceber onde entraram.

Mas quando ela tem que levar

Uma cabeça esperta

Ela dá um sorriso malandro

Porque ela sabe que vai ter boa companhia,

Sabe que vai andar bem acompanhada.

A morte

Vive

na cabeça.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A moça


(Moça nua no Jardim - autor desconhecido)

Talvez os olhos falem sempre mais
E mais alto.
Chega uma hora
Que as meninas entendem isso,
(Essa sutileza de fêmea)

E o fazem conscientemente.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Certas Senhoras

(Suzanne Valadon - Henri de Toulouse-Lautrec)


- Ora, Horácio!

Uma mulher culta

E ciente de sua faculdade feminina

Faz isso com sutileza.


Ouvi a Senhora falar alto.


Mulheres sozinhas

Situadas nos seus mundos

Que riem da graça plena do gozo

Mas que não são conquistadas.


Talvez elas já entenderam o amor,

Entraram no universo da mulher,

O próprio universo

Que proeza!

E conheceram a beleza do ser

Talvez...

E aprenderam a formosura

do só,

Do olhar e só

Somente.


Desfizeram os castelos,

Deixaram de sonhar com os príncipes,

Apropriaram-se do efêmero

E colocaram os pés no chão.

Sim, elas sabem que são belas.

Sim, elas entendem a divindade

Até riem com Deus

Essas mulheres...


Vou ter uma prosa com Horácio,

Quero saber mais da Senhora.



Postado também no Cachaçaria Cearence de Letras

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Depois do Encontro

(parte da obra O Beijo - Gustav Klimt)


Beijinhos brincalhões
entre uma palavra e outra
deixam uma música
de presente...

Ela toca no dia seguinte.

Do Segredo da Velocidade

(imagem da retirada da internet)

A cidade passa correndo

O céu logo ali

Atrás dos prédios,

Em cima dos prédios

Por todo redor.

Eu sinto que posso abrir os braços

Eu sinto que posso ir

Muito além das nuvens

Quando tudo é tão imenso

Quando o céu

pode virar uma piscina cósmica

E eu dou cambalhotas.

E as pessoas passando

Tão depressa

E as árvores tão verdes

São minhas

É meu

E passa tão rápido.

É meu até meus olhos passarem a vista

A vista profunda,

Olhar de segundos

E é tudo meu

Até eu não ver mais.


Se fizer esforço

Pra me fixar em um ponto

O encanto

Vai embora

O segredo é não se prender.


Deixar os olhos

Passar por cima.

Desse jeito o céu sempre parece maior

E é exatamente desse jeito

Que eu me sinto voar

Acima da cidade,

das pessoas,

dos objetos,

dos sentimentos,

da confusão.


É só olhar pela janela

É só acompanhar a viagem

da janela do ônibus.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Visita


Passo dias esperando, passo meses assim, e quando os dias chegam, passo horas.
Na Sala onde trabalho tem uma janela de vidro, suas hastes são brancas e seu vidro ofuscado.
Em minha mesa velha, do século passado(creio eu), digitando algum contrato ou outra coisa trivial, acontece o esperado: Vem chegando devagarzinho, devagarzinho, quando vejo, está lá preenchendo tudo. Paro de digitar, apago a luz, tomo mais um café, deleitando-me sob esse espetáculo natural: A Luz do sol(das quatro!) enchendo minha sala e meu coração!
Que luz tão sublime! Ela me encontra por um curto período do ano, em alguns minutos da tarde.
É belo perceber sua chegada - graças aos movimentos do planeta sobre seu próprio eixo e ao redor do sol - e com isso me deixo ser consumida pelos pensamentos mais íntimos e filosóficos, pensando "como a toda a razão da natureza é poética". A luz pode contornar os prédios, driblar árvores e antenas, e encontrar-se comigo. Achando uma brechinha ela vem direto, toma a janela, os vidros, a mesa, a tela do computador(que passa a refletir em menor intensidade), toma as papeladas, o cafezinho e todo meu peito, por hora iluminado.

Devaneios da Alma

(pintor desconhecido)


De uma performance
carregada e leve.
Ver um artista concentrado
à comunhão perfeita,
O artista cheio
Quase explodindo o peito
Com sua harmonia mística.
Coisas do ser
Bem de dentro...

O artista fecha os olhos
Como num cochicho à Deus
Dizendo:
- Entendo, Sinto e Sei!

E a alma dançando
Quase saindo
pela respiração
No mais perfeito
silêncio da alma
Enquanto do lado de fora
Soa o som
O som que soa
A alma do artista.


P.S.: Poema escrito sob um show da Breculê e dedicado ao seu Grande Percussionista, Túlio.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Eu queria escrever sobre a Mentira

(Henri de Toulouse-Lautrec)


Por que todo mundo odeia a mentira? Talvez seja a mentira safada, essa mentira que não vale nada, porque na verdade a mentira tem sua utilidade (que é bastante útil) e tem sua beleza.
Sempre que falo a palavra MEN-TI-RA, me vem a cabeça, como primeira coisa que me vem a cabeça: lábios carnudos e vermelhos.
A mentira tem a mesma beleza da sedução. Tem os olhos... os olhos da mulher que olha falando de amores efêmeros e sem nenhum compromisso.
A boa mentira se veste como uma mulher bonita e fica toda sensual. Essa mentira não faz mal, afinal todo mundo sabe que quando uma mulher sedutora olha, ela olha com os olhos da mentira e ela fala do efêmero. A beleza da mentira consiste nisso, em ser passageira, a não durar, mas porém causar um efeito notório, com todos os trejeitos de quem diz quem não é necessário ligar no dia seguinte.
A mentira vai embora à noite ainda, silenciosamente, e nem olha pra trás, e até olha, pra nunca mais olhar.
A mentira nunca quer ficar e é aí onde está sua sedução.
Ela percorre vários lugares e se depara com mil e uma situações e ela quer é muito mais: A mentira sabe viver!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A rosa Vermelha


Pela manhã cálida

Espalha-se um brilho,

Diria um cheiro,

Algo presente

E que não se vê.


Dentre todas as cores

Uma rosa Vermelha.

Fazendo do multicor

O incolor

E do incolor

Uma aquarela.

E vejo o nefasto

Virando inefável,

E todas outras coisas

Que por hora estavam inertes,

Adormecidas,

Apodrecendo

(de tão maduro),

Se transformando com uma rapidez...


A rosa brotando de dentro pra fora

E agora presente em quase tudo que vejo.

Aquele vermelho

Que por vezes

Me deixava tão escarlate

Agora dança dentro de mim,


Esse mesmo vermelho

Que assustava a menina

E que um dia foi rosado,

Mostra-se sem nenhum ímpeto ou pudor

Á quem deixar-se vê-lo,

Aos corações que carregam uma flor.


Uma rosa brotou!

E digo-lhes,

Ela dá a tudo uma cor

E quando fenece

Deixa-nos

Somente

O incolor

A desgracença do preto e branco.