sábado, 26 de março de 2011

Conclusão dos Conhecedores e Amantes

Café Java - Praça do Ferreira


Fortaleza fervilha
embaixo do tapete de lixo.

E sua poética ressoa
sobre toda atmosfera etílica:
o barulho das buzinas,
a morbidez alvoroçada das pessoas,
os corações abrazados nos botecos
e a fumaça.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O Quarto Vermelho

Amadeo Modigliani

Guardo tantas coisas nesse quarto,
Se escondem
outras tantas mais,
Submerge sempre
uma outra porção,
Desaparece constantemente
um bom bocado
do que eu fui.

Peço silêncio às paredes
elas sabem de tudo,
Peço silêncio às paredes
Elas são de uma calidez taciturna
mas também são gélidas
e suas palavras pódem me cortar sem perdão.

nos dias de volúpia
elas apenas olham
e nos dias de fúria
cantam o rock do diabo.

E todos os móveis
espaços vazios
e papeis no chão
têm sua explicação:
No quarto vermelho
tudo é revelação
e mistério.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Paradoxo dos duetos

Eu Amarelo - Derby

Sentir e escrever são duas coisas diferentes.
Até a mão ter terminado o serviço,
'falando' a respeito de um sentimento,
o sentimento já é outro
e já se passaram inúmeros entre a primeira letra
e o ponto final.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Fêmea e Macho

Henri de Toulouse Lautrec

É duro acreditar
Na simplicidade dos homens.
É cruel
Às vezes.

Um dia, eu disse:
- Não quero ser assim!
Quero continuar acreditando na sutileza do amor.

O que vem a confortar
A alma dessas mulheres apaixonadas
É o fato de saber
Que é da vida, é do viver.
E a vida Ao se mostrar de frente
Dá um sorriso sutil,
Dizendo à mulher:
- Eu bem que quis te mostrar...

Daí entende- se:
É da vida,
É do viver
As complicações,
Ilusões,
A paixão...

A Vida é uma fêmea,
O Viver é macho.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Polígono

Cena do filme Tempos Modernos

Um poeta falou que um poeta fala do presente
Embora por meio do passado,
Embora que se use o futuro.

Quando as correntes da certeza serão dissipadas?
Até quando todos os meus irmãos comerão o que é jogado?
Por quanto tempo mais vamos esconder a nossa liberdade?
Essa mesma liberdade
Que só o recém-nascido toca de verdade.
Por que não vivemos, simplesmente?

Essa vida tem um formato,
Essa vida tem um formato, embora bem remoto
Difícil de enxergar.
Essa vida é um polígono viril!
Cada vértice é um cadeado.
O trabalho pra ganhar dinheiro,
O dinheiro pra comprar,
A compra pra comer,
E comer pra trabalhar.

E quando pensa que é livre
Sai, vai a uma festa
Dança bastante, bebe.
E se gasta dinheiro na festa
E o trabalho ta lá na festa.

Esse é o polígono.

Tanta fé vã, meu Deus!
Tantos valores inventados.

Sexo
som
gosto
sensação
pensamento...
Isso é a vida crua/nua.
A gente devia entender que ela é uma reta
(infinitos pontos)
E não esse polígono miserável
Tão limitado.

Se fizer errado(Não do jeito que mandam): Vai ser demitido!
Se gastar mal (Não do jeito que quer): Vai ficar no sufoco!
Se comer demais (Não como desejas): Vai ficar gordo!
Obedeça!
Obedeça!
Obedeça!
Se encaixe na forma
E saia da reta.

- Eis a vida de um perfeito cidadão!
(Disse meu irmão)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Visão

À Mário Quintana

Olhando braços de pessoas
Olhando o céu
Olhando o formato de um chapéu
Surpreendendo-me com o movimento das pernas.

Como ensinaram?
Como fizeram?
Quem teve a idéia?

Olhando invenções
A tela do computador
Olhando a cor
Como tudo se criou?

Seria loucura, a visão?
Ou loucura seria não ver?

Às vezes me pego olhando o mundo...
Olhando de outro planeta
(outra cabeça).

domingo, 23 de janeiro de 2011

A Festa

Cena do Filme A vida é Bela


No começo da tarde eles se falaram, quando enfim, ela perguntou:"ainda chateado comigo, pai?"
E ele respondeu:"não..."
Daí eles se comunicaram normalmente, ele puxando assuntos(os mais bestas que se possam imaginar) pra conversar com a ela que se esforçava pra ser atenciosa.
Então ele atrapalhou o que ela estava fazendo, ele atrapalhou...
Mas antes disso propôs um programa para os dois: "vamos cantar!"
A filha concordou sem titubear, ela queria aquele contato, porém depois do pai atrapalha-la ela se trancou em seu quarto. Dera fim ao contato; cortou o fio que talvez os unissem, quem sabe.
E ao sair do quarto um segundinho, a procura de uma toalha limpa, deparou-se com o aparelho, o aparelho que eles cantariam, o microfone, os discos, tudo organizado, o fio do microfone muito bem desenrolado, sem dar uma dobra se quer, e as caixinhas dos discos que ele escolheu, numa pilha feito pirâmide toda organizada: estava tudo pronto pra festa! Mas ela dera fim. A festa estava toda arrumada, mas a convidada dispensara seu anfitrião. E ao se deparar com o aparelho, o fio, os discos, toda aquela produção, uma produção como quem espera um importantíssimo convidado; olhando aquela singela produção ela quase chorou: Os pais sempre esperam.